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Autismo: um universo particular

Autismo: você já ouviu falar? Um transtorno de desenvolvimento que prejudica a capacidade de se comunicar e interagir. Com causas ainda desconhecidas, o Transtorno do Espectro Autista (TEA), popularmente chamado de Autismo, desafia a ciência e está cada vez mais comum entre as crianças. Especialistas calculam que o distúrbio afeta cerca de 1% das crianças – 1 a cada 100.

De acordo com a neuropediatra do Hospital Santa Catarina de Blumenau, Dra. Lúcia Ribeiro Machado Haertel, o autismo é um transtorno de neurodesenvolvimento que geralmente aparece nos dois primeiros anos de vida e compromete as habilidades de comunicação e interação social. “Crianças com o transtorno podem já demonstrar sinais no primeiro ano de vida: elas não mantêm contato visual efetivo, não olham quando você chama, e a partir dos 12 meses, por exemplo, também não apontam com o dedinho para os objetos”, explica.

Segundo a médica, o diagnóstico é clínico, baseado na observação direta do comportamento da criança e de uma entrevista com os pais ou responsáveis. “Os sinais costumam estar presentes antes dos 2 anos de idade, sendo possível diagnosticá-los por volta dos 18 meses ou mais tardiamente nos casos mais leves”, destaca.

 Como e quando o autismo se manifesta?

O autismo se instala nos dois primeiros anos de vida, quando o cérebro está passando por mudanças significativas em sua organização sináptica e acaba seguindo um padrão atípico de desenvolvimento. Embora o transtorno não tenha cura, quando demora para ser reconhecido, esses neurônios não são estimulados na hora certa e a criança tem sua capacidade de desenvolvimento reduzida. “A demora em identificar o transtorno dificulta o tratamento, agrava os sintomas e traz mais sofrimento para as famílias”, aponta a neuropediatra.

Algumas características podem ajudar a identificar o problema. “Não sorrir em resposta a interação, não ter interesse por outras crianças, não responder com estímulos quando é chamada pelo nome são apenas alguns dos sintomas”, enfatiza Dra. Lúcia.

As crianças com autismo tendem a se isolar. Elas não participam de brincadeiras coletivas, evitam o contato físico, sentem-se desconfortáveis com carinho e não conseguem brincar de esconder o rosto, de faz de conta ou de imitar adultos.

A relação com os objetos – brinquedos – também é bem diferente do esperado. A criança que sofre com o transtorno utiliza os objetos de uma forma muito particular. Ela pode passar horas brincando de girar as rodinhas do carrinho, por exemplo. “Conduzir os pais e/ou responsáveis até o objeto de desejo ao invés de apontar o dedo é outra característica marcante”, completa Dra. Lúcia.

Os benefícios do diagnóstico precoce

 O diagnóstico precoce é fundamental para o tratamento do transtorno. Habitualmente, esse diagnóstico não é fechado antes dos 3 anos de idade, o que dificulta que os terapeutas consigam reduzir os prejuízos para os pacientes. Segundo a neurologista, essa investigação é complexa e envolve uma série de etapas: observação de sinais comuns do transtorno; exames neurológicos e cognitivos; avaliações de fala e audição; testes genéticos. “O questionário M-CHAT é uma das ferramentas que ajuda os pediatras a identificar sinais do espectro autista entre crianças de 18 a 24 meses de vida e encaminhá-los precocemente ao especialista”, ressalta.

Compreender o autismo pode ajudar os professores e os pais e responsáveis a trabalhar as áreas de desafio. De acordo com a Dra. Lúcia, a intervenção e o tratamento precoce pode melhorar o desenvolvimento de uma criança, independentemente do nível de gravidade do autismo. “As características essenciais do transtorno do espectro autista são prejuízo persistente na comunicação social recíproca e na interação social e padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Esses sintomas estão presentes desde o início da infância e limitam ou prejudicam o funcionamento diário”, cita.

Para a neuropediatra, o estágio em que o prejuízo funcional fica evidente varia de acordo com as características do paciente e do ambiente. “Manifestações do transtorno também variam muito dependendo da gravidade da condição autista, do nível de desenvolvimento e da idade cronológica”, acrescenta.

Hoje, o termo “transtorno do espectro autista” engloba transtornos antes chamados de autismo infantil precoce, autismo infantil, autismo de Kanner, autismo de alto funcionamento, autismo atípico, transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação, transtorno desintegrativo da infância e transtorno de Asperger.

Fatores de risco: quais são eles?

Atualmente o autismo é considerado predominantemente genético com herança poligênica, ou seja, quando vários pares de genes interagem para determinar uma característica, cada um com efeito aditivo sobre o outro.

Conforme a neuropediatra, além da genética alguns fatores ambientes também podem estar associados, como a prematuridade e o baixo peso ao nascer.

 O poder do tratamento direcionado

Como vimos até aqui ainda não existe cura para autismo, porém, um programa de tratamento precoce, intensivo e apropriado melhora muito a perspectiva das crianças com o transtorno.

Para a neuropediatra o principal objetivo do tratamento é trabalhar as habilidades sociais e comunicativas da criança por meio de uma programação estruturada de atividades construtivas. “O tratamento que tem mais êxito é o que é direcionado às necessidades específicas da criança. Um especialista ou uma equipe experiente deve desenvolver o programa para cada criança”, aponta.

Há várias terapias disponíveis para tratar problemas sociais, de comunicação e de comportamento que estejam relacionados ao autismo. Alguns focam na redução de problemas comportamentais e na aprendizagem de novas habilidades. Outros procuram ensinar crianças a como agir em determinadas situações sociais e a como se comunicar. “Os medicamentos utilizados durante o tratamento não tem como objetivo tratar o transtorno, mas sim os problemas associados a ele, como agressividade, ansiedade, problemas de atenção, compulsões extremas, hiperatividade, impulsividade, irritabilidade, alterações de humor, surtos, dificuldade para dormir”, assegura.

O caminho para o tratamento mais assertivo é a persistência e a união de esforços em prol do desenvolvimento da criança.

Texto: Fabiane Moraes

 

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